Segunda-feira, Maio 28, 2012

UMA GRÉCIA HUMILHADA

Ninguém quer ignorar as culpas das oligarquias gregas que, por décadas, governaram o país com métodos que estavam longe dos cânones de uma normal, transparente e verdadeira democracia.

Ninguém ignora que o poder destas mesmas oligarquias, mercê da despesa incontrolada, orçamentos falsificados, corrupção, uma generalizada evasão fiscal - ainda hoje activa - e fuga de capitais conduziram a Grécia ao estado calamitoso em que se encontra.

Quando falamos de crise, entendemo-la como uma crise económica ou, antes de qualquer outra consideração, uma crise política e moral? Propendo para estes dois últimos aspectos da questão. Mas prossigamos.
Conhecemos as causas que esmagam o povo grego. Sabemos quem são os principais responsáveis, quer na Grécia, quer na União Europeia, pois esta não desconhecia as trapaças orçamentais daquele país para entrar na zona euro.

Também sabemos, todavia, que a maldição caiu sobre os menos culpados ou inocentes, isto é, os cidadãos comuns, sobretudo da classe média.
É esta Grécia que eu vejo humilhada; insensível e vergonhosamente espezinhada, na sua dignidade e esperanças de um bem-estar normal num país normal.
Não tenho, portanto, a mínima compreensão nem quero aceitar a indiferença e prepotência de quem lhe impôs normas que a humilham e sufocam, sem a aliviar e, simultaneamente, corrigir-lhe erros despesistas e políticos, pois já havia normas disciplinadoras para isso. E pior ainda, quando era bem conhecido que, de há cinco anos, a Grécia está em recessão.

Não era difícil nem impossível tê-lo feito no momento oportuno, mas quiseram punir em vez de corrigir, ajudando, e deixaram passar o tempo até que surgisse a gangrena. Imposições nórdicas simplesmente desumanas.

Dizem que a Europa unida perdeu poder de atracção, agora que os europeus não se contrapõem através de guerras. Mas é difícil chamar paz ao que estamos a viver.
Belicoso é o modo como se falam gregos e alemães, de há dois anos a esta parte. Belicoso é o clima de depressão e medo. Belicoso, sobretudo, é o tratamento reservado aos países endividados, chamados, não por acaso, com o acrónimo PIGS (suínos) e considerados como se fossem povos vencidos com as armas; a ostracizar, punir.
Os planos de austeridade, como a guerra de Clausewitz, transformaram-se na continuação da política com outros meios, e a Europa, associada a tais planos, sofre o mesmo destino, o que significa: a austeridade e belicosidade suplantam a política; suprimem-na”.

Estes são os primeiros parágrafos de um artigo de Bárbara Spinelli - “Se a Europa recordasse Keynes” - (jornal La Repubblica, 23/05/2012)
A autora prossegue, recordando o tratado de Versalhes de 1919, os factos subsequentes e as consequências que levaram Hitler ao poder.

No fim da Segunda Guerra Mundial, ao arrepio do tratado de Versalhes, a América e a Europa contrapuseram o nascimento do plano Marshall, o FMI e a União Europeia.
[…] Depois de 1945, a Alemanha reconstruiu uma democracia modelo, forjada pela introspecção da política da memória. Mas com o tempo, a memória tornou-se hemiplégica: como se apenas uma parte da história fosse conservada.
[…] Urge uma nova política da memória na Alemanha e, sem ser a última, a memória das dívidas bélicas alemãs, extintas em Londres pelo acordo de 1953, graças também à Grécia que renunciou às indemnizações.

Seria oportuno recordar o aviso de Keynes contra os absolutistas do contrato, levados a transformar os pactos (pacto orçamental, hoje) em «usura ininterrupta»”.

É precisamente contra esta “usura ininterrupta” que os PIGS (Portugal, Itália, Grécia, Espanha) lutam: usura imposta pelos mercados, aos quais ninguém ousa impor regras e, paralelamente, pelas pretensões de hegemonia do Banco Federal Alemão. Acrescentemos a insensibilidade e o egoísmo, arrogantemente ostentados, dos países ditos virtuosos, financiados a custo quase zero. Mas que bela União!

Só espero que a maioria dos países da União Europeia levante a voz e, com razoabilidade, imponham um Banco Central Europeu como uma instituição com poderes adequados a um verdadeiro banco central e não como tranquilizador da fobia alemã sobre a inflação – fobia, mania ou pretexto.
Não se compreende por que não possa assumir-se, em circunstâncias bem determinadas, como emprestador de último recurso.

A fim de parar imediatamente o processo com o qual o pânico e o medo minam a estabilidade da zona euro, o BCE deveria anunciar que o diferencial entre as taxas de juro sobre as obrigações dos Estados com problemas de liquidez, mas solventes - Espanha, Itália, Portugal e Irlanda - e as alemãs não poderia superar um certo nível, digamos 300 pontos base.” – Paul De Grauwe – Professor na London School of Economics.*

Esta, sim, que seria uma medida urgente, importante e imposta sem os rituais “nãos, ses e mas” – neste caso indecentes – da Senhora Merkel.

Domingo, Maio 20, 2012

 LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Quando se alude à liberdade de expressão, implicitamente também se alude à liberdade de imprensa.

È um tema sempre evocado e muito debatido; exprime razão de gritos de alarme, quando algo surge que o põe em causa. Mas também é motivo de discursos vazios de quem o interpreta, segundo as circunstâncias ou conveniências.
E todavia, é esta uma liberdade absolutamente inseparável da concepção de uma sã e correcta democracia. Digo mais: é uma das liberdades por excelência dos direitos do homem.

Sem uma informação ampla e aberta a todos os temas e eventos, a todos os factos passados ou recentes, internos ou externos, poder-se-á dizer que se vive enclausurado numa mente sem luz nem horizontes.

Sem a faculdade de denunciarmos, concreta e objectivamente, abusos de poder e abastardamentos da correcção que pretendemos e devemos exigir a quem gere as várias instituições, quer sejam públicas ou privadas, certamente que se abre caminho a autoritarismos: a democracia definha, a prepotência avoluma-se, a liberdade esvai-se, o cidadão torna-se num súbdito sem direitos.
Eu nasci e cresci sem que me fosse possível aprender, na idade própria, o que é a vida de um cidadão num Estado de direito. Logo, falo com conhecimento de causa e, por consequência, com a necessária repulsa por tudo o que ofenda esse Estado.

Foi com profunda náusea que li o comunicado do Conselho de Redacção do jornal Público, denunciando as pressões e ameaças do Ministro-Adjunto dos Assuntos Parlamentares, o Excelentíssimo Dr. Miguel Relvas.
E este excelentíssimo ministro das múltiplas responsabilidades – uma das quais na área da comunicação social - ameaçou que faria queixa à ERC, se fossem publicadas certas notícias; que promoveria um black out de todos os ministros em relação ao Público. Pergunta-se: é assim tão potente que os restantes ministros devam obedecer aos seus ditames ou birras?
Por fim, ameaçou divulgar, na Internet, dados da vida privada da jornalista.

Enquanto nada se provar que, efectivamente, Miguel Relvas ameaçou a jornalista que procurava informar-se sobre as “incongruências nas respostas do Ministro, no Parlamento” (o deplorável caso das secretas), é óbvio que Mário Relvas merece o benefício da dúvida. Mas merecê-lo-á?

Se o Conselho de Redacção se insurgiu daquele modo, torna-se justo perguntar: fê-lo sem pesar prós e contras?
Não creio. Uma indignação daquele género não se improvisa nem explode imponderadamente, e não importa se há dissídios entre o Conselho de Redacção e a Directora do jornal. Ninguém desconhece que é consuetudinária e universal a pressão de políticos sobre os meios de informação, quando algo lhes interessa ou assusta… e nem sempre isenta de avisos ameaçadores.

Sendo assim, não me espanta que um recém-chegado ao poder, inebriado pela importância que se auto-atribuiu e a quer demonstrar a cada momento com arrogância, não aceite, democraticamente, objecções á ambiguidade e pouca clareza do seu modus faciendi.

As ameaças formuladas, embora desmentidas, são consentâneas a estas mentalidades. A serem verdadeiras e comprovadas, apontam para uma única estrada a seguir: demissão imediata.
No Governo que temos, porém, tal acto não é computado. Na arrogância e presunção que ostentam (exceptuando alguns ministros) para levar a cabo as directivas da Troika, quase transmitem a ideia que se inspiram no famigerado “Estado Novo”. O conceito de demissão, portanto, não é assimilável; ademais, por este motivo.
Mas será exagero da minha parte.

Domingo, Maio 13, 2012

UM BOM AUTOR DE DISCURSOS:
NECESSITA-SE URGENTEMENTE

Não sei se Passos Coelho soube rodear-se daqueles óptimos e indispensáveis conselheiros que ocorrem para uma justa e equilibrada administração do país.
Alimento muitas dúvidas, embora tenha adquirido uma certeza: falta-lhe um conselheiro competente que lhe calibre, lime, aperfeiçoe os discursos que deve proferir. Sobretudo, que o persuada, o convença a fugir das improvisações - ou pseudo-improvisações – porque, inevitavelmente, resvalam para o disparate, arrogância e insensibilidade. Ora, como bem sabemos, tudo isto é inadmissível num homem de Estado, num político, por muito limitado que seja. Mas infelizmente, o Sr. Passos Coelho entra nesta última categoria.

Vejo-o como um diletante da política, no sentido de inábil, sem experiência, mas com a presunção autoritária de quem tudo sabe, o que é triste. É triste, é inaceitável e indispõe, precisamente quando tanto necessitaríamos de políticos assisados, competentes, corajosos!

As críticas, ásperas e alargadas, não se fizeram esperar sobre os conselhos paternalistas que o Senhor Primeiro-Ministro dirigiu, na sexta-feira passada, aos desempregados, aos que se vêem sem trabalho e sem esperança, a famílias inteiras sem fontes de sustentamento.

Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade”.

Comentar estas palavras ou esta parte do discurso do Primeiro-Ministro, ponderando todas as circunstâncias do período que atravessamos, seria repisar o que é bem claro: autênticos despautérios com as portas fechadas a quaisquer justificações.
Estranhamente, e talvez por associação de ideias, ecoaram nas minhas lembranças outras palavras de um outro primeiro-ministro, Salazar: “É bem que os pobres saibam que são pobres”.
Alinhando nesta ordem de pensamento - e fiquemo-nos por aqui... - no século XXI encontrou um bom discípulo.

Vem muito a propósito narrar um facto que sucedeu em Porto Empedocle, uma cidade siciliana na província de Agrigento.
É uma história que espelha o desespero… de quem perdeu o emprego.

Numa Estação de Correio da cidade, entrou um homem armado com um cortador de abrir pacotes e intimou aos presentes: “Ninguém se mexa. Isto é uma rapina”.
Os intimados não se mexeram, mas não se assustaram. Olharam para a cara do improvisado rapinador e compreenderam que dali não viria perigo. Falaram com ele, conseguiram acalmá-lo e o pobre homem, de 51 anos, desabafou, em lágrimas: há muitos meses que estava desempregado, não encontrava trabalho e não sabia como manter dois filhos.
As pessoas enterneceram-se e, enquanto se esperava pela polícia que fora alertada, iniciaram uma colecta para o ajudar. Juntaram cem euros e entregaram-lhos.

Já no Posto da polícia explicou, sempre em grande choro, que tinha agido num momento de grande desespero e não sabia como solucionar a sua situação de desempregado e da falta de recursos, além da impossibilidade de encontrar qualquer via normal para os alcançar.
Foi formalizada uma denúncia por “violência privada” e, “com uma pancadinha nas costas” – assim narram os jornais - mandaram-no embora.

Li esta notícia com grande tristeza e piedade. Oxalá que dê ocasião ao prolongamento da solidariedade encontrada no Correio e haja alguém que possa oferecer um emprego àquele homem sem esperanças.

E para afastar-me da tristeza, termino com uma curiosidade sobre o nome da cidade onde o facto se verificou.
Até 1863, Porto Empedocle (Porto Empédocles) tinha o nome de Marina di Girgenti. A partir desse ano, passou a chamar-se Porto Empedocle, em homenagem e a fim de recordar o filósofo Empédocles, nascido em Agrigento (antiga Girgenti), cerca de 490 A.C.

Domingo, Maio 06, 2012

O MANIFESTO DOS INTELECTUAIS EUROPEUS

Quando as situações se agravam e degeneram; os abusos e oportunismos abafam o bom senso e a concepção do bem comum; governos democraticamente eleitos esquecem as principais regras da democracia e querem resolver problemas autoritariamente e sem um mínimo de sensibilidade pelos mais débeis ou os que não têm voz influente… Quando tudo isto sucede, aplaudo com entusiasmo quem bate o punho na mesa -  civilizada e pacificamente - diz “basta!” e reage.

Aconteceu-me tudo isto, quando li o manifesto apresentado por Ulrich Beck (famosos sociólogo alemão) e Daniel Cohn-Bendit (deputado europeu e também famoso estudante do Maio 1968). Será publicado, ou já o foi, nos principais jornais europeus.

È impressionante a lista das adesões ao manifesto, quer pelo número, quer pela espessura intelectual, política, artística, científica de grandes figuras europeias, apoiantes e signatários desta iniciativa.
Será, ou já foi publicado, nos mais importantes jornais europeus. Traduzo a versão publicada no jornal La Repubblica de 03 – 05- 2012.
Se ainda não conhecem ou não leram o texto deste manifesto, leiam-no. Vale bem o tempo despendido na leitura.

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A EUROPA SOMOS NÓS
É O MOMENTO DE RECONSTRUÍ-LA

Ulrich Beck e Daniel Cohn-Bendit

Um Ano Europeu de Voluntariado para Todos como resposta à crise do euro: para taxistas e teólogos; para trabalhadores e desempregados; para dirigentes e músicos; para professores e alunos; para escultores e ajudantes de cozinheiro; para juízes do Supremo e cidadãos idosos; para homens e mulheres.
Os jovens da Europa nunca foram tão instruídos, todavia, sentem-se impotentes face à iminente bancarrota dos Estados-nação e ao declínio terminal do mercado de trabalho.

Entre os europeus com menos de vinte e cinco anos, um em cada quatro está desempregado. Nos múltiplos lugares onde levantaram acampamentos e lançaram protestos públicos, os jovens, defraudados dos seus direitos, reivindicaram justiça social. Em qualquer parte – na Espanha, Portugal, nos países da África do Norte, nas cidades americanas ou Moscovo – esta solicitação eleva-se com força e grande fervor. Cresce a raiva contra um sistema político que salva os bancos monstruosamente endividados e delapida o futuro dos jovens.
Mas quanta esperança pode ainda existir para uma Europa que envelhece constantemente?

O presidente americano, John F. Kennedy, maravilhou o mundo com a sua ideia de fundar um Corpo da Paz. «Não pergunteis o que a América pode fazer por vós, mas o que vós podereis fazer pela América».
Nós, assinando este manifesto, queremos que sejais o porta-voz da sociedade civil europeia. Por este motivo, pedimos à Comissão Europeia e aos Governos nacionais, ao Parlamento Europeu e aos Parlamentos nacionais que criem uma Europa dos cidadãos com um emprego activo e de fornecer os requisitos financeiros e legais para o Ano Europeu de Voluntariado para Todos, qual contramodelo à Europa do alto, a Europa das elites e dos tecnocratas que tem prevalecido até hoje e que se sente investida da responsabilidade de forjar o destino dos cidadãos europeus, contra a sua vontade, se necessário.
Porque é esta máxima não declarada, da política comunitária, que está a ameaçar a destruição do inteiro projecto europeu.

O nosso escopo é o de democratizar as democracias nacionais para reconstruir a Europa no espírito do pensamento de Kennedy: não pergunteis o que a Europa pode fazer por vós, mas o que vós podereis fazer pela Europa, fazendo a Europa!

Nenhum pensador progressista, desde Jean-Jacques Rousseau a Jürgen Habermas, jamais quis uma democracia que consiste, unicamente, na faculdade de votar em períodos regulares.
A crise do débito que está a esfrangalhar a Europa não é simplesmente um problema económico, mas é também um problema político. Temos necessidade de uma sociedade civil europeia e da visão de gerações jovens, se queremos resolver as pungentes questões da actualidade. Não podemos deixar que a Europa seja transformada no alvo de movimentos enraivecidos de cidadãos que protestam contra uma Europa sem os europeus.
A Europa não pode funcionar sem a contribuição dos europeus empenhados na sua causa; os europeus não podem fazer a Europa se não podem respirar o ar da liberdade.

A acção prática - transcendendo os confins estreitos do Estado-nação, da religião e da etnia - que o Ano Europeu do Voluntariado para todos quer promover não deve ser compreendida como uma débil tentativa institucionalizada para cobrir os fracassos europeus. É uma visão que deseja abrir espaços para a criatividade.
Não se trata de um meio para distribuir esmolas aos jovens desempregados: é um acto de auto-afirmação da sociedade civil europeia, um acto que pode ser usado para construir uma nova Constituição propositiva, a partir do baixo, para repristinar a criatividade política e a legitimação da Europa.
A liberdade política não pode sobreviver numa atmosfera de medo. Pode prosperar e radicar-se somente se as pessoas têm um tecto a abrigá-las e sabem como fazer para viver: amanhã e quando serão velhas.
Eis por que o Ano Europeu do Voluntariado para Todos tem necessidade de bases financiarias sólidas. Solicitamos às empresas europeias que dêem o seu justo contributo.

Se deseja construir uma cultura a partir do baixo, a Europa não pode permitir-se de recair em linhas de acção predefinidas. Os cidadãos desta Europa irão para outros países e empenhar-se-ão nos problemas transnacionais sobre os quais os Estados nacionais já não estão em condições de oferecer soluções apropriadas, como seja: o degrado ambiental; as mudanças climáticas; os movimentos de massa de refugiados e migrantes; o radicalismo de direita.
Aproveitar-se-ão das redes europeias de arte, literatura e teatro como palco para promover a causa europeia. É necessário estipular um novo contrato entre o Estado, a União Europeia, as estruturas políticas da sociedade civil, o mercado, a previdência social e a sustentabilidade do ambiente.

O que existe de bom na Europa? Qual é o valor da Europa para nós? Qual modelo poderia e deveria ser a base da Europa no século XXI? São questões abertas que devem ser enfrentadas urgentemente.
Para nós, de “We Are Europe”, a resposta é esta: a Europa é um laboratório de ideias políticas e sociais sem equivalência em nenhuma outra parte do mundo.
Mas o que é que constitui a identidade europeia? Poderíeis responder que a “europeidade” nasce do diálogo e da dissensão entre muitas culturas políticas diversas: a do cidadão, do citoyen, do citizen, do Staatsbürger, do burgermatschappij, do ciudadano, do obywatel. 
Mas a Europa é também a ironia, é a capacidade de rir de si mesmos. E o melhor modo para encher a Europa de vida e de gargalhadas é que os cidadãos comuns ajam em conjunto, espontaneamente.

Domingo, Abril 29, 2012

PARTIDOS, “DOENÇA DA DEMOCRACIA”?

Esta pergunta foi formulada como uma provocação e, paralelamente, um pretexto para advogar razões incontestáveis sobre a existência dos partidos numa democracia e condenar a interpretação que estes fazem dos votos que lhes são outorgados.

A democracia jamais poderia sofrer desta “doença”, pois os partidos são imprescindíveis na democracia representativa que aprendemos a conhecer e que praticamos; não a concebo sem partidos que representem as nossas convicções e ideias.
A doença, ou seja, o mal sub-reptício que a desgasta é o modo como a “partidocracia” começou a atropelar ideais, se instala no poder e os caminhos que percorre para o atingir.
Tudo faz para nos comprovar que um partido significa o poder, reforçado pelo facto de autoconstituir-se uma casta onde os privilégios são indefectíveis e de direito por graça divina.

Observo como se comportam, interior e exteriormente, e não consigo vislumbrar a prova de que são a “expressão dos cidadãos”, isto é, os nossos verdadeiros representantes na ânsia de vermos a coisa pública administrada com ética e o entusiasmo de bem servir. Ética?! Pretendê-la é ter quase a sensação que começamos a entrar no campo da veleidade! Mas não sejamos tão drásticos: felizmente, ainda existe quem a cultive e respeite.

Em conclusão, é necessária uma forte dose de boa vontade para reconhecermos, nos partidos - melhor, na forma como actuam - um serviço à nação. O que vemos é uma pura, descarada e árida luta pelo comando e interesses próprios.
É triste, portanto, verificar a actual baixa popularidade das diversas facções políticas. Na Itália, o nível oscila de dois a oito por cento; em Portugal, desconheço a percentagem, mas advirto um mal-estar semelhante.

Todas estas considerações e desagrado ressurgiram, após o que tem vindo a lume sobre as propostas dos três elementos que devem ser eleitos para o Tribunal Constitucional.
Mais que desagrado, sinto-me verdadeiramente indignada com o comportamento do Partido Socialista, partido em quem sempre votei, desde que regressei a Portugal: precisamente por que o voto é que duplamente me indigno.
Não compreendo nem quero aceitar esta atitude de quem persiste num erro, quando deveria demonstrar pundonor no cuidado e máxima atenção em propor candidatos de perfeita admissibilidade para uma das mais altas instituições de um Estado de direito.

Se Conde Rodrigues é inadequado, por razões exaustivamente apontadas, e não é necessário sermos iniciados na matéria para o compreender; se é proposto mais como homem de partido – para mim, inadmissível – do que como um juiz dotado de um currículo digno de respeito, há poucas deduções a extrair deste caso.
Somos levados a concluir, por consequência, que o PS, alcandorado nos votos que lhe demos, esqueceu totalmente que nos deve provas de decência e não compadrios que só revelam arrogância e estupidez. No que concerne o Dr. Conde Rodrigues, é penosa a sua falta de dignidade, pois já deveria ter retirado, espontaneamente e logo que choveram perplexidades, a própria candidatura.

É pena que os eleitores não meditem no poder que têm, quando depositam o voto nas urnas; não saibam renovar escolhas que melhor exprimam o que sonham para o bem do país; não exijam mais democracia e rigor no processo de selecção dos nossos representantes no Parlamento ou em quaisquer outras instituições.

Segunda-feira, Abril 23, 2012

A MODERNA FEBRE DO OURO

Quase poderia dizer que não existe uma única rua, aqui na cidade de Vila Nova de Famalicão, onde não se vejam grandes cartazes amarelos a informar que se compra ouro. Houve acenos ao pagamento de cinco euros a quem desejasse avaliar os seus tesouros.
Inicialmente, a onda crescente de negócios de compra e venda de ouro despertou-me apenas curiosidade. Esta curiosidade, todavia, foi de breve duração e transmutou-se em asco.

Os motivos que provocaram tal mudança apresentaram-se-me no seu primeiro significado: a maldita crise e os dramas de quem perdeu o emprego; de quem viu os seus rendimentos decresceram e tornarem-se insuficientes; a miséria de quem tem de socorrer-se do que ainda possui de valioso, mesmo que seja a modesta aliança de casamento.
Agora, sempre que tropeço nesses convites, alguns aludindo à oferta de 33,00 euros por um grama, encontro um único termo de avaliação: abutres.

Chamo-lhes abutres, porque me é difícil encontrar um motivo que explique, com razoabilidade, esta explosão ostentatória da compra de ouro e pratas a privados, aproveitando-se da tremenda situação económica e financeira que atravessamos e nos estrangula.
Sempre existiram e existem ourivesarias que não somente vendem como compram peças de ourivesaria usadas. Que a crise as leve a potenciar e aumentar as transacções, nada se vislumbra de anormal, pois entra na sua peculiar ordem de actividade. Anormal é esta febre e o pulular de negócios ad hoc que a exasperam.

Perto do local onde compro os meus jornais, abriu um escritório exclusivamente dedicado ao “compramos ouro usado” e cuja fachada se apresenta inteiramente atapetada com as inevitáveis parangonas em papel amarelo. Quando estas parangonas, casualmente, atraem a minha atenção, sempre as imagino a piscar o olho aos necessitados ou aflitos, e desvio os olhos anojada. Confesso que é já um sentimento que não sei dominar.

O Público de sábado passado, nas duas primeiras páginas interiores, apresentou um serviço interessante e com amplas informações sobre o nosso Portugal que “está a derreter parte da sua história da joalharia”.
Peças de ouro antigas ou de uma certa beleza criativa, juntas e no mesmo grau de importância de quaisquer outras peças banais, serão derretidas e transformadas em barras de ouro, destinadas a exportação: as exportações de ouro, nos dois primeiros meses de 2012, aumentaram 147% em relação ao mesmo período de 2011.

Mais uma vez pergunto: Portugal está mesmo a saque?
Obras de arte que saem do país e ninguém presta a devida atenção à qualidade dessas obras, ao modo como vão para o exterior e ao provável empobrecimento do nosso património artístico. Surge agora esta febre do ouro e a destruição de tantas peças que a nossa ourivesaria soube criar através dos séculos.

Por que não se estuda o fenómeno aprofundadamente, tentando discernir o que é aceitável do que é ilegal ou moralmente condenável?
Qual a razão de tanta indiferença? Mas será indiferença, conivência nas exportações ou ignorância de quem deveria defender e curar estes bens que nos enriquecem e caracterizam?
Penso que se verifique a combinação destas três causas, além da estupidez, o que é muito triste e desconfortante.

Segunda-feira, Abril 16, 2012

"UM GOVERNO PEDAGÓGICO"

Imaginemos que, no trecho abaixo traduzido, tudo quanto foi escrito por Piero Ottone, em relação à qualidade da política italiana, se poderia aplicar à situação portuguesa. Não seriam necessários grandes esforços de imaginação: quantas similitudes! Quanta homogeneidade na escassez de sensibilidade política e quão decepcionante é o nosso “padrão de classe dirigente”!

Seguindo a governança do executivo português e ressalvando poucos ministros, é desolante o diletantismo do Primeiro-Ministro que, em simbiose com a hiperactividade de Miguel Relvas, tende a resvalar para decisões autoritárias, envoltas em retóricas vazias.
Mas vejamos as reflexões do excelente jornalista Piero Ottone no seu artigo de 10 de Abril (jornal La Repubblica) com o título: “O Líder Pedagogo”. Permitir-me-ei intercalar algumas observações.

Num país como o nosso, rico de história e cheio de gente com qualidades, desde empresários e professores; inovadores e estudiosos; operários e artesãos, falta, como é notório, uma classe dirigente, isto é, uma categoria de pessoas capazes de tomar as sortes da nação nas próprias mãos e de guiá-la.”
E desde que Mário Monti e os seus colegas estão no Governo, perguntámo-nos, cheios de esperança: são eles um bom padrão de classe dirigente? Demonstram eles que uma classe dirigente potencial existe nos bastidores italianos e que basta descobri-la, como fez Giorgio Napolitano em Novembro passado, confiando-lhe os destinos da nação? Também isto perguntámos, mas a resposta, infelizmente, é negativa.”

De igual modo, seria negativa em Portugal. Uma potencial classe dirigente existiria, mas é marginalizada ou mantém-se fora da esfera política. Além disso, na Presidência da República falta-nos um Giorgio Napolitano!... Prossigamos.

Tínhamo-lo compreendido, mercê de tantos sinais, um após outro.
A frase de Monti, pronunciada durante o percurso da última viagem no Oriente, foi a prova definitiva: «Se o país não está preparado, poderemos abandonar»…
Esta frase indica a verdadeira natureza do nosso Governo: uma natureza pedagógica, não política.
Natureza pedagógica: de pessoas que, segundo as circunstâncias, sabem ou crêem, em boa-fé, de saber quais são os nossos problemas e como devem ser resolvidos; quais as medidas adequadas e quais as soluções. Mas oportunamente, o director de La Repubblica escreveu: «Atenção, não estamos numa escola».

A este respeito, a preocupação do executivo português consiste, quase infantilmente, em obedecer e obter aprovação, com palmadinhas nas costas, da Troika e de Ângela Merkel. Iniciativas corajosas, construtivas e impulsionadores não lhe ocorrem; é óbvio que essa “natureza pedagógica” não bafejou as pessoas que o compõem. Mas continuemos.

Uma classe dirigente é, na sociedade, uma categoria diversa: uma categoria de pessoas dotadas, mais que de conhecimentos, de sensibilidade política. Aptos a individuar, sempre que necessário, não somente os problemas correntes, mas de incutir a vontade de resolvê-los. Capaz de dar a certeza que conhece o caminho certo e que sabe fazer-se seguir. O líder não é um pedagogo que ensina. É um chefe que conduz. (O sublinhado é meu).

Agradeçamos a nossa sorte, porque existe um Monti, existe uma Fornero (ministra do Trabalho) capazes de compreender qual é a via justa para resolver os problemas nacionais. No fim de contas, compreenderam-no até hoje. Podem ter cometido erros, mas não é este o problema. No seu conjunto, adquiriram méritos, restabeleceram a confiança internacional no nosso país.
São pessoas sérias e competentes: agradeçamos a Deus a sua existência. Todavia, não são dotados da qualidade essencial numa classe dirigente: o carisma. E então? Continuemos e esperar: talvez um dia ou outro, uma classe dirigente surgirá.”

E eu alimento a mesma esperança para a nação portuguesa.